
OS FILHOTES
Nas alturas o ar escasso penetra os pulmões sem obstáculos, mas escasso à gravidade pesa como a consciência. A distração me leva a recordações boas, como líquido que jorra entre os dedos, na textura fácil, e chega a saudade então. A saudade de voar e ser apanhado no bico de um pássaro grande, depois levado ao ninho como alimento aos filhotes insaciáveis. A nuvem me atravessa leve antes de cair. A queda me faz acordar num susto bom. Cara, é legal demais acordar depois da queda. Pode imaginar a leveza e o compasso desritmado do coração em pulos, ao perceber os pés no chão, mesmo após a queda da alma numa orgia de impulsos que me levaram a outra dimensão por alguns segundos. Eu vi como é lá, rapaz! É oco. É abstrato ao sabor amargo de um chocolate forte. É insano e não me coube direito em seu espaço vazio. É absolutamente pesado. É finito e incompreensível a sua magia ao me sugar para o interior de mim mesmo. A esmo. Numa semi-vida lerda. Como o pássaro filhote, faminto, estúpido e que ainda por cima não sabe voar. É bom.
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