PUNK ROCK
A autobiografia de Dee Dee Ramone, Coração Envenenado (Barracuda, 191 págs.), com a colaboração de Veronika Kofman, pode ser lida como uma boa literatura pop, na linha de John Fante, Bukowsky e Burroughs. O universo descrito pelo baixista e letrista da banda Ramones é composto por empresários ardilosos, músicos incompetentes, pais ordinários, prostitutas, traficantes e viciados. É um mundo asfixiante descrito cruamente. Sua mãe é uma “bêbada louca, dada a explosões emocionais”. Seu pai, um “fraco e egoísta”. Ele próprio, um “fracassado” que não via “motivo para fazer uma coisa funcionar se pudesse quebrá-la”. Com esse estado de espírito, conta bizarrias: o hábito de passar a mão na careca de anões para dar sorte; a convivência com outros malucos em hospícios; descrições de amigos com hábitos artísticos estranhos como pintar quadros com sucos de frutas e registrar trovões em gravadores de rolos; ou que encontraram Jesus durante uma viagem de ácido. Também há passagens deliciosas, como sua percepção da vida de viciado: “Desde o começo senti que o grande problema dos narcóticos é que eles tendem a levar ao crime”. Merece registro a descrição de seus dons artísticos: “Até hoje não entendo como nós conseguimos. Eu não fazia idéia de como afinar ou tocar um baixo. Eu só conhecia a nota mi”. No meio disso tudo, surgem importantes nomes da cena alternativa, como Sid Vicious, Iggy Pop e Deborah Harry. Outro ponto forte são as narrações inverossímeis, como a do anel de ouro e diamantes que Dee Dee diz ter tirado de um cadáver sepultado de pé num cemitério em Nova York. No mundo pop, o que vale é a diversão, ainda que pesada.
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